terça-feira, maio 18, 2010

Educação Ambiental para crianças = integração com a vida

Educação Ambiental para crianças = integração com a vida

Bere Adams



Quando falamos em Educação Ambiental (EA), logo nos remetemos a uma educação voltada para a busca de soluções, que promova na sociedade uma tomada de consciência sobre os problemas ambientais, oriundos da nossa forma de viver. Temos uma tendência muito grande a focar a EA para resolução de danos, ou nos efeitos negativos que provocamos no ambiente, uma vez que essa prática educacional surgiu, justamente, pela falta de consciência dos nossos impactos nocivos, ao longo do processo civilizatório.



Há tanta incoerência em nosso sistema social, refletida diretamente no sistema ambiental, que não há como disfarçar ou “enfeitar”, com toques mágicos, a nossa dura realidade para as crianças. Estas situações são abstratas, para elas, e mais as confundem do que as educam.

Minha preocupação, quanto a este enfoque de uma EA preservacionista e conservadora – que muitas vezes é até catastrófico -, é a de que nossas crianças sejam educadas a partir de problemas ambientais dos quais elas não têm a menor responsabilidade, e podemos provocar situações de angústia, confusão, e até de medo. Por isso, a EA deve abranger muito mais do que problemas ambientais.



“Ao longo do tempo, o processo ambiental educativo foi alterando suas feições de protetor da natureza para as de seu uso sustentável [...], da inclusão de outras dimensões como a social e ética, indicando, assim, novos rumos a serem seguidos e novas barreiras a serem transpostas” (Coleciona V. 2, MMA, Zaira Guimarães, 2008).



A EA, portanto, deve buscar integrar as crianças ao ambiente como um todo (natural, construído, social, familiar, cultural) promovendo a percepção de que a vida acontece de forma sistêmica a partir de muitas interrelacões, e que cada ação interfere nesse amplo sistema.



O processo educativo da educação ambiental vivencial considera os indivíduos de forma integral, incluindo e priorizando o aprendizado através do corpo, dos sentidos e da percepção mais sutil de si mesmos, dos outros, do mundo, da natureza, e dos processos vitais que dão origem e sustentam a vida, cuidando para que as informações científicas não se interponham na interação de aprendizagem e mascarem ou inibam os processos de natureza mais delicada. (Coleciona V. 2, MMA, Zaira Guimarães, 2008).



Atividades de experimentação: observação (como a vida acontece), comparação (semelhanças e diferenças), criatividade (atividades com diferentes técnicas artísticas), visitação (saídas de campo), vivência (dinâmicas de grupos e brincadeiras em espaços naturais), etc, são atividades que inserem as crianças ao contexto ambiental de forma que estas se sintam parte dele, e dentro desse processo, aos poucos, os problemas ambientais são trabalhados, assimilados, e as aprendizagens tornam-se mais significativas.

Temos que, fundamentalmente, respeitar o mundo encantado da criança, que já é tão privada de infância... Não se trata de enfeitar os problemas, ou educá-las para o "felizes para sempre", pois esta é a outra ponta do problema. Extremismos não educam - deseducam. Que sejamos moderados e que o mundo infantil possa continuar encantado, para que ela possa vislumbrar com esperança um mundo real melhor!



Publicado em 18/05/2010

sábado, maio 08, 2010

Como anda a Educação Ambiental no Brasil?

Como anda a Educação Ambiental no Brasil?

Berenice Gehlen Adams





A Educação Ambiental, no Brasil, a passos muito lentos vem ganhando cada vez mais fôlego através de iniciativas da sociedade civil (mobi-lizações das ONG's), de órgãos governamentais (com diferentes projetos em andamento: salas verdes, coletivos educadores, Redes de EA) e da iniciativa privada (inserção da EA nas empresas), porém, se configuram, muitas vezes, em práticas isoladas, estanques, e por vezes desconectadas das realidades locais, ou, ao contrário, focando somente um determinado problema ambiental local, sem articulá-lo com uma realidade maior.



Percebe-se, portanto, e de uma maneira geral, que a Educação Ambiental (EA) vem sendo aplicada, no País, em diferentes instâncias, de forma dispersa, e enfatiza questões pontuais voltadas principalmente para problemas ambientais como: lixo, saneamento, bacias hidrográficas, na maioria das vezes com um enfoque de apelo para "salvar o planeta", ou seja, ainda pontual -voltada para problemas (visão cartesiana), e não integradora - voltada para a prevenção (visão complexa). Uma visão integrada possibilita uma ressignificação de ambiente em sua totalidade, desenvolvendo a percepção de que somos parte integrante do ambiente.



Conforme principais documentos referências da Educação Ambiental, dentre eles a Lei Nº 9.795/99, a Educação Ambiental é interdisciplinar que deve estar presente em todas as sérias e em todas as disciplinas, desde a Educação Infantil ao Ensino Superior. Porém,



[...] no ambiente escolar as práticas de Educação Ambiental (e, conse-quentemente, as pesquisas dela decorrentes) têm sido realizadas privi-legiando: sua articulação com o currículo do Ensino de Ciências e/ou Biologia e Geografia; uma temática que apresenta nítidos vínculos com temas relacionados à Ecologia; a discussão de problemas ambientais, em sua maioria com forte conotação técnica, relacionada a concepções biológicas (SORRENTINO, 1997; LIMA, 1999; AMARAL, 1995 e 2001; MEYER, 2001; FRACALANZA, 2004). (In: FRACALANZA, 2010, s/p).



A educação, sem dúvida alguma, ainda é a melhor via para o desenvolvimento da cidadania ambiental, e os processos educativos são fundamentais para a promoção das mudanças de hábitos e atitudes das pessoas e suas relações com o meio ambiente, principalmente os que associam atividades informativas e sensibilizadoras, porém, deve-se compreender que tais processos integram um conjunto de ações sociais para a busca de soluções dos problemas ambientais. A escola está carregada de problemas que se arrastam, ano após ano, e o que é pior, acentuam-se, e é nesse contexto que a EA tenta desespera-damente se instalar.



De fato, a prática educativa voltada à questão ambiental no Brasil enfrenta graves desafios. Por um lado, tem a responsabilidade de formar quadros aptos a enfrentar a gestão dos sistemas naturais, visando uma sociedade sustentável e a melhoria da qualidade de vida das populações; de outro lado, defronta-se com a necessidade de formar cidadãos capazes de compreender e enfrentar a atual crise ambiental. (FRACALANZA, 2010, s/p).



É preciso contribuir para algumas mudanças e melhorar o contexto educacional através da Educação Ambiental.



Outro fator que provoca essa "lentidão" da evolução da EA no País é a descontinuidade de projetos quando ocorrem mudanças de gestão no governo. Muitos bons projetos iniciados são descontinuados, e novos projetos se iniciam, dando até a impressão de estarmos constantemente reinventando a roda.



[...] A realização de práticas de Educação Ambiental, no âmbito da educação escolarizada, entre outros aspectos, depende de uma adequada formação de profissionais para o magistério. E, deve-se convir, face à diversidade de propostas de Educação Ambiental, a formação adequada do professor necessita, também, de acesso às informações disponíveis e sistematizadas pela produção acadêmica e científica. (IFRACALANZA, 2010, s/p).



E acrescento, também, a necessidade de um trabalho com profissionais do magistério, articulado com os principais documentos referência da Educação Ambiental, para que os projetos de EA desenvolvidos pelo País tenham sintonia entre si quanto aos princípios, aos objetivos e as propostas de ações.



A falta de capacitação ou formação dos profissionais responsáveis pela EA, e dos professores para a inserção da Educação Ambiental deixa muitas lacunas em todos os contextos. Estas lacunas causam um certo desequilíbrio nas ações de Educação Ambiental realizadas no País.



Apesar [...] da lei brasileira prever a EA em todos os níveis e modalidades de ensino, inclusive nas universidades, permanecia, em 2005, a sensação entre educadoras/es ambientais de que, justamente nas instituições de ensino superior, faltavam políticas públicas educacionais relacionadas à dimensão ambiental na formação das pessoas, bem como de estruturas específicas para desenvolver a temática nesse meio ( BRASIL, 2008, p. 133).



Com base nesta lacuna, está em andamento um projeto de pesquisa elaborado para a Pós Graduação com Especialização em Educação Ambiental da Universidade Federal de Santa Maria, que propõe a elaboração e efetivação de um programa piloto de Capacitação de Educação Ambiental em Documentos Referência, cujo principal objetivo é proporcionar aos educadores uma convivência educacional e pedagógica com os principais documentos referência de EA que são: A Lei Nº 9.795/99, que institui a Educação Ambiental no Brasil; o Tratado de Educação Ambiental para Sociedade Sustentável e Responsabilidade Global; e, A Carta da Terra.



Existem muitos outros documentos importantes, além destes, porém, estes foram selecionados, pois: o primeiro legitima essa prática no Brasil, portanto, trata-se de um documento legal que todos os professores devem ter conhecimento e compreensão; o segundo, porque foi criado com a participação de diversas ONGs, por fundamentar o ProFEA (Programa Nacional de Formação de Educadores Ambientais/MMA), amplo programa de formação em Educação Ambiental proposto pelo MMA; e, o último por ser um documento que nasceu pela vontade da sociedade civil mundial em importante evento paralelo a Eco 92, o Fórum das ONG's, agrupando ideias de pessoas e diferentes grupos de mais de 120 países.



Conclui-se ser indispensável elaborar e aplicar um projeto de capacitação que oriente os educadores de todo País, de todos os níveis e de todas as áreas, para a inserção da EA crítica, e desta forma, promover uma EA alinhada aos princípios dos principais documentos referência da EA, elaborados por diferentes coletivos, e que seja contextualizada a realidade local/regional de onde esteja sendo praticada e vivenciada.



REFERÊNCIAS:



BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental. Departamento de Educação Ambiental. Os diferentes matizes da educação ambiental 1997-2007, Brasília: DF. MMA, 2008. (Séries Desafios da Educação ambiental).

FRACALANZA, Hilário; et all. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL. Disponível em: < http://www.fe.unicamp.br/formar/revista/N000/pdf/EA%20no%20BR%20-%20Artigo%20(01-07-08)%20Reformulado.pdf > Acesso em 12/04/2010.



Publicado em: Projeto Apoema - Educação Ambiental - 20/04/2010 www.apoema.com.br