quarta-feira, abril 14, 2010

Maria Leoni Sauter Hennemann - Parceira do Projeto Apoema

Posto aqui matéria com parceira do Projeto Apoema, a Maria Leoni S. Hennemann para que a conheçam melhor. Desenvolve atividades no sítio ecológico Lewa Esperança,


Perfil Popular - Maria Leoni Sauter Hennemann - Parceira do Projeto Apoema

Por: Graziela Wolfart, 11/05/2009

Natural do município de Morro Reuter, no Rio Grande do Sul, e filha de descendentes de imigrantes alemães e italianos, Maria Leoni Sauter Hennemann aprendeu com os antepassados uma lição que carrega por toda a vida: honrar o solo em que pisa. É por essa razão que ela e seu marido Walério vivem a causa ambiental e o amor pela terra no sítio ecológico Lewa Esperança, adquirido há quase 30 anos pelo casal. Moradora de Novo Hamburgo/RS, Maria Leoni participou da Feira de Artesanato realizada na Unisinos na semana passada, quando contou à IHU On-Line um pouco da sua trajetória e dos valores que regem sua vida e de sua família. Confira:

“Éramos uma família de pequenos agricultores, com nove filhos. O pai e a mãe tinham muita dificuldade, inclusive financeira, porque não se tinha dinheiro. Mas sempre fomos e seremos uma família feliz e unida, porque aprendemos valores que continuamos defendendo até hoje.” Assim Maria Leoni Sauter Hennemann, 61 anos, decide iniciar a contar sua história de vida para a editoria Perfil Popular desta semana. Entre os valores aprendidos em casa, ela destaca, em primeiro lugar, a humildade. “Isso é o básico, nos leva para qualquer lugar. E humildade quer dizer o seguinte: nunca se sabe tudo, sempre se tem a aprender.” Durante a feira de artesanato em que participou na semana passada na Unisinos, comercializando produtos orgânicos produzidos no sítio próprio que ela e o marido possuem, Leoni destaca que cada feirante tem a sua história. E o que gratifica é que eles vão até o estande dela e comentam que ali tem praticamente todas as coisas que lembram a infância de cada um: a bergamotinha, a laranja, o doce em calda, ou até a schmier de fruta.

“Viemos de berço com essa ideia de conservar os conhecimentos”, justifica Leoni. Ela lembra que, na época da infância, tudo era muito artesanal, até porque não havia tecnologia. E a questão do cultivo orgânico vem de lá. “Que bom que não tinha agrotóxicos, não tinha sacolas de plástico. Tudo praticamente era retornável. Naquela época não se comprava nada na bodega. Se fazia tudo em casa.” Leoni conta que foi em casa que aprendeu o valor da família. “Isso sempre foi precioso. Nove filhos, o pai e a mãe mais a avó somavam 12 pessoas em casa. Nossa mesa era composta completa no café da manhã, no almoço e na janta. Todos juntos e no primeiro momento todos faziam silêncio e alguém puxava a oração. Geralmente era a avó quem fazia, por ser a pessoa mais velha, e era em alemão. E todos rezavam”, relata, ao frisar que o mais velho representa o saber, o conhecimento, e todos devem respeito a essa pessoa.

Maria Leoni é pedagoga e tem experiência na área de educação de mais de 40 anos. Ela reconhece que as crianças hoje não têm mais limites. “Nunca se escreveu tanto sobre o respeito aos limites como agora. Nunca se debateu tanto esse assunto. Só que na prática o que vemos é o contrário. Parece que as pessoas não estão se entendendo. Existe uma ruptura muito grande entre o saber escrito e o fazer do dia-a-dia”, lamenta, comparando com o respeito que as crianças tinham no passado.

Maria Leoni e seu marido Walério possuem há 29 anos uma propriedade ecológica, um sítio, de 75 mil metros quadrados, localizado no município de Portão/RS. Além do casal, lá trabalham um funcionário, durante quatro horas por dia, e o sogro do filho de Leoni e Walério, que é o seu José, como voluntário. “Nós temos normas e regras. Só que elas não são escritas. Nós as vivenciamos na prática. Para isso, também existe a questão dos limites. As pessoas esquecem que limites não se dão apenas para as crianças, mas para os adultos também. As crianças simplesmente imitam o que observam. Não adianta um pai, uma mãe, uma avó pregar algo para uma criança e depois fazer outra”, argumenta.

Durante 20 anos, a família trabalhou na preparação do sítio para um dia começar a mostrar os resultados da produção para as pessoas. E o tempo dedicado a esse trabalho era apenas aos sábados, domingos e feriados, uma vez que durante a semana Leoni trabalhava na escola, como pedagoga, e seu marido era mecânico automotivo, como funcionário de mais de 30 anos na mesma empresa. O casal nunca precisou fazer nenhum empréstimo para manter a propriedade. “Trabalhamos com sustentabilidade desde o começo. Basicamente, para nós, isso significa o seguinte: sempre gastar menos do que a gente ganha. A saída sempre deve ser menor do que a entrada. É simples. Isso também se aprendeu de berço.”

Família
Leoni e seu marido Walério se conheceram em Gramado, na época em que ela estudava no internato, na Escola Dom Pedro II, e ele foi até lá com alguns amigos para testar um carro. Foram se aproximando e se apaixonaram. O casamento foi em 1970. Três anos depois, nasceu Fabiano, único filho do casal, que lhes deu um neto, o Victor, de três anos de idade. Fabiano é engenheiro eletricista, com mestrado na mesma área. Depois de trabalhar por mais de 12 anos na Unisinos, atualmente ele trabalha na SAP, que também fica no câmpus da universidade. Victor estuda na Escolinha Canguru, na Unisinos, com quem o sítio Lewa Esperança tem uma parceria por meio de organização de feiras. A nora de Leoni, Ilce Duarte, que é a mãe de Victor, trabalha na Unisinos, e é uma mãe exemplar, segundo a sogra. “Estamos muito felizes como avós porque o Victor está sendo muito bem educado, ele está tendo uma boa base familiar.”

As sogras
“Eu e minha nora temos uma boa relação”, garante Leoni, que lamenta o fato de as sogras na sociedade serem sempre ridicularizadas. E ela gostaria de dar um recado para todas as sogras: “Para ter um boa relação é preciso entender que, no momento em que o filho casa, ele forma uma outra família. E a mãe do filho tem que respeitar este espaço. Às vezes, até eles seguem outros princípios e, com isso, a gente pode aprender. E eu aprendi muito depois que meu filho constituiu a família dele. A mãe do filho tem que deixar inclusive eles errarem e isso é muito difícil. E esperar que eles peçam ajuda. As mães não podem ser antecipar para as ajudas nesse caso, porque é no erro que a gente aprende”.

Leoni e Walério, depois do casamento, foram morar na cidade de Novo Hamburgo, onde estão até hoje. Eles sentiam falta do contato com o campo com que eram acostumados. E não queriam perder esse vínculo com o meio ambiente, com a postura que aprenderam. Por isso, decidiram comprar um pedaço de terra. Outro plano era que esse seria o local onde eles passariam o tempo depois da aposentadoria. Começaram com 1,7 hectares e foram ampliando aos poucos, até chegar aos 7,5 atuais. Hoje, a família segue na propriedade os princípios da permacultura, que é o respeito ao solo, ao ar e às plantas, sendo que o ser humano se localiza no ambiente sem degradá-lo. O nome do sítio, Lewa Esperança, é a sigla de Leoni e Walério.

Desde 2000, eles comercializam os produtos elaborados no sítio. E a procura é grande, garante Leoni. Eles vendem uma grande variedade de verduras, ovos de colônia, frutas, tudo sem agrotóxico. Para adquirir os produtos, basta procurar a residência do casal, localizada em Novo Hamburgo, na Rua Tapes, número 565, ou a ir até o sítio, que fica na Estação Tafona, em Portão. Para conhecer a propriedade, é preciso agendar uma visita pelo telefone 3593.1094 ou pelo e-mail lewaesperanca@terra.com.br. Lá, tem a “Casa do conhecimento”, para quem quiser conhecer. Trata-se de uma casa antiga, que Leoni e o marido restauraram, levando para lá todos os objetos dos seus antepassados, que lembram os imigrantes alemães e italianos. “O berço em que eu e meus irmãos dormimos está lá. O guarda-roupa da mãe, a bengala do pai, roupas, malas de garupa, fotografias de época”, descreve.

Formação
Formada em Pedagogia pela Feevale, Leoni ainda tem pós-graduação em Ensino Especial pela UFRGS, e especialização em Áudio Comunicação, pois trabalhou um período com crianças surdas. Ela conta que sempre teve uma preocupação com a questão da aprendizagem. Percebia que muitas crianças levavam mais tempo para aprender do que as outras, tinham o seu tempo e ela queria entender isso. Quando se aposentou, em 2000, Leoni começou a cursar Paisagismo na Escola Perau do Encanto, de Nova Petrópolis/RS. Além disso, ainda conclui em 2005 o curso de agroindústria familiar. E atualmente faz um curso de formação do educador coletivo.


Leoni e a sua família são católicos. Mas ela confessa que vê a religião católica com preocupação, até porque muitas vezes “é só de aparência”. “Religião e fé independem de prédio. A fé deve fazer parte do dia-a-dia, das atitudes de vida da gente. Na prática.” Ela confessa que não vai à missa todos os domingos, mas vive sua fé todos os dias da semana. Para Leoni, a fé se vive na relação com o outro. “Respeitar o outro na sua caminhada e não pegar nada que não me pertence, são meus princípios de vida.”


Link da reportagem:
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_tema_capa&Itemid=23&task=detalhe&id=1609&id_edicao=320

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